O Bardo Thödol em dois capítulos do “Livro Tibetano do Viver e do Morrer”
© Prof. Dr. Orley Dulcetti Junior
Apresentado na PUC-SP como Trabalho de Conclusão
de Disciplina de Doutoramento em 2012
O presente trabalho aborda o estudo sobre
a “Primeira Parte: Viver”
nos capítulos sétimo “Bardos e outras realidades” e do
oitavo “Esta vida: o bardo natural”, do livro de autoria de Sogyal Rinpoche
(2007): “O livro tibetano do viver e do
morrer”.
Fig.1: O “Livro Tibetano do Viver e do Morrer”de Sogyal Rinpoche.
Sogyal Rinpoche
é um lama reencarnado (rinpoche, rin pó she, ou tulku em sânscrito) do budismo tibetano que segue a tradição dos Bon do Tibete. Tem sido destacado pelos
ensinamentos orais e escritos associados ao Bardo Thödol. Foi professor em Universidade Ocidental ,
fundou e é diretor da Fundação Rigpa
de estudos budistas.
O lamaísmo
tibetano resulta da composição das crenças e religião autóctones do Tibete, o Bon (em tibetano: བོན་) constituídas de práticas mágico-xamânicas, dos ancestrais, dirigidas
pela figura do lama (em tibetano: བླ་མ་, transliteração Wilye: blama) como um mestre espiritual e a
adoção do budismo tântrico hindu. (KVAERNE, 1985, p. 3).
O
lama Jayang Rinpoche (2001, p.22) comenta que o Tibete convidou o budismo e não
foi por ele penetrado. Mas, consiste na estratégia de popularização e difusão
do Bon na própria nação e para o
resto do mundo revestido do budismo trazido da Índia.
O
Rei Song-tsen Gampo do Tibete por volta do século VII, inicia a introdução do
budismo naquele país. Além de enviar seu ministro para levar a escrita
devanagari e criar o tibetano literário. Por isso, foi considerado o primeiro
Chosrgyal (Sogyal) ou Dharma-Raja (Ibidem).
Sogyal
Rinpoche reconhecidamente foi considerado a encarnação de Lerab Lingpa Tertön
Sogyal. Este último foi professor do décimo terceiro Dalai Lama, Thubten Gyatso. O lama Jamyang
Khyentse Chökyi Lodrö, chamado carinhosamente de Buda Primordial pelos
tibetanos, como também de Rinpoche, o precioso adota Sogyal como filho (RINPOCHE,
2007, p. 14).
Sogyal ou Chosrgyal, do tibetano Chos é
Dharma (em devanagari: धर्म), em sânscrito, Dharma-Raja (Rei
do Dharma). O termo Repuxe em
tibetano quer dizer precioso, título honorífico do budismo tibetano e refere-se
a reencarnação de um lama que outrora foi especial para a tradição dos Bon-po (praticantes do Bon) tibetano. Em sânscrito Rinpoche (em tibetano: རིན་པོ་ཆེ་) é Tulku (em tibetano: སྤྲུལ་སྐུ ), que tem o sentido de nirmanakaya
ou corpo do Budha e se reporta à
encarnação de lamas ou mestres espirituais (THURMAN, 1995, p. 75).
O especialista
em tibetano e antropologia religiosa Cornu (1999, p. 271) da Universidade Paris
VI, assinala que, a linhagem dos lamas tulku
remete ao Budha Primordial. Eles são os depositários da sabedoria
ancestral, a chama viva da sabedoria primordial. Na transmissão de poder (abhisheka em sânscrito, em tibetano wang) revela-se a própria natureza do
lama e nele encarna-se no interior do ser a sabedoria primordial.
A
sabedoria e budeidade primordiais remontam à primordialidade, fonte dos seres, in illo tempore e funcionam como
símbolos nos mitos de Origem. Eliade (2007) classifica a primordialidade em
pré-cósmica e cosmogônica, histórica.
Na
primordialidade pré-criacional (cósmica) ocorre a personificação em figuras
simbólicas, tais como o Ser Supremo. (ibidem,
2007).
Em
Eliade (2007), os mitos de origem narram e legitimam um novo acontecimento:
Mas todo novo aparecimento - um animal, uma planta, uma
instituição – implica a existência de um Mundo. Os mitos de Origem prolongam e
completam o mito comogônico. (Eliade, 2007, p. 25).
Isso ocorre como na genealogia dos
monarcas tibetanos a qual começa com a formação do Mundo a partir de um Ovo
Cósmico até chegar a atualizar na figura do chefe de uma dinastia, de um clã,
ou de um lama.
Bardos e outras realidades – capítulo sete de Rinpoche
Rinpoche
(2007) traz seus ensinamentos da tradição oral Dzogchen a “Grande Perfeição” transmitida nos escritos do Bardo Thödol
O
capítulo sete conceitua o bardo e propõe ensinamentos práticos.
O
termo Bardo, do tibetano significa
“transição, ou um intervalo de uma situação e o início de outra”. Do tibetano Bar ou “entre duas coisas” e Do, “suspenso” ou “lançado” (Ibidem,
2007, p. 141).
Concordante
com Sogyal, o tradutor do Bardo Thödol para o idioma inglês, Robert Thurman
(2006, p.11) discorda do título mal escolhido, “O Livro dos Mortos”. Rinpoche
(2007, p. 141) traduz do tibetano Bardo
Thödol Chen Mo, como Grande Liberação
por meio da audição do bardo.
A palavra Thödol provém de Thos Grol significa “liberador”, que consiste na principal mensagem
da obra: Bardo Thödol.(Thurman, 2006, p. 14).
Rinpoche
(2007, p. 141) afirma que tais ensinamentos provêm de uma ancestralidade de
antes dos tempos e se remete ao Buda Primordial (em tibetano Kuntuzangpo
e em sânscrito, Samantabhadra) de
“pureza primordial” como o “céu da natureza de nossa mente”.
A
primordialidade evocada novamente identifica-se com a atemporalidade
pré-criacional, o tempo mítico. (Eliade, 2007, p. 26).
O autor alude ao mito do
Livro Tesouro (em sânscrito: terma) ao
mencionar a autoria dos ensinamentos a Padmasambhava
(o nascido do lótus) como figura mítica fundadora da escola Nyingmapa. O texto sagrado guardado ou
escondido foi descoberto, posteriormente, num monte, no século XVII, por Karma Lingpa. Os textos tesouros são caracterizados
por uma existência muito remota e costumam ser encontrados por um mestre budista
tibetano (tibetano: terton, o revelador
dos tesouros) numa caverna, cova, rocha ou nas paredes de um templo muito
antigo. (SECRETAN, 1982, p. 33).
Os
bardos referem-se aos estados intermediários entre a morte e o renascimento.
Segundo Eliade (2007, p. 59) pode inferir o contexto no momento da morte, de um
mito escatológico, a destruição cíclica do Mundo e do ser. Seguido do mito
cosmogônico correspondente ao período da morte ao novo nascimento da pessoa ao
se refazer a cosmologia budista. São oportunidades para a liberação e
iluminação dirigidas pelo lama.
Rinpoche
(2007, p.143) afirma que a existência possui quatro realidades ou quatro
bardos: vida, o morrer e a morte, o pós-morte, o renascimento e correspondem ao
bardo natural dessa vida, o bardo doloroso da morte, bardo luminoso do dharmata, bardo cármico do vir-a-ser.
São quatro intervalos que podem levar a iluminação.
O homem
deve atingir novamente seu estado primordial pela prática espiritual no bardo
da vida. O estado Budhi ou de iluminação extinção do desejo, ilusão - a
natureza primordial no ser-o mito do Garuda, cujo símbolo é uma ave mítica
mencionada por Rinpoche (2007, p.146). Ele nasce adulto e “simboliza nossa natureza
primordial que já é complemente perfeita”. A ave nascida do ovo cósmico, hiranyagharba (em devanagari: हिरण्यगर्भ): ), matriz de
ouro, como Brahma que nasceu do ovo de ouro a ave só pode voar ao sair do ovo,
o estado de budeidade fica “velada pelo corpo” e ao desencarnar “as qualidades
aparecem de forma radiante”. Nesse momento especial da morte pode-se reconhecer
a Luminosidade base atinge a liberação e somente a prática espiritual pode
conduzir. Durante a vida no corpo pode-se também liberar-se pelo reconhecimento
essencial da Clara Luz.
Diferentes
bardos correspondem a diferentes estados mentais que permitem chegar a um só
estado: o búdico. Relacionam-se cada bardo a um nível de consciência na vida e
morte.
A Meditação
(dhyana, em sânscrito, em devanagari: ध्यान), um treinamento budista: no bardo
da meditação prática diurna podem ocorrer diversos estados do ser e pode-se até
chegar a iluminação (RINPOCHE, 2007, p. 148).
O
ato de dormir: o período do sono corresponde ao bardo da morte leva a Luminosidade
de Base. O sonhar corresponde ao Bardo do vir-a-ser e permite o deslocamento do
corpo mental. Entre o sono e o sonho ocorre o bardo do dharmata possibilidade de reconhecimento da própria natureza. A
prática noturna é um tipo de Yoga do
sono e do sonho. (Ibidem, 2007, p.150).
O
mito escatológico aproxima-se do contexto do sonho que corresponde a morte. Ele
contém símbolos e o bardo Thödol conta os mitos através de símbolos como Luz,
zonas luminosas, luz fundamental (em tibetano transliterado: gzh’i od-gsal)
(SECRETAN, 1982).
A
natureza espiritual é a luminosidade a que se refere Rinpoche (2007) e corresponde
ao estado primordial do ser, dos tempos míticos.
Rinpoche
(2007, p.151) acrescenta: “nós também somos budas. “ É agora – tornar-se
iluminado nessa vida”.
A
natureza interior do ser humano é a natureza espiritual da luz. O homem em
essência é uno com Budha, natureza Budhi ou gérmen do Tathagata. (SECRETAN,
1982).
O Uno Primordial é uma figura simbólica no
antes da criação repleta de ontogenia. A primordialidade no ser remonta aos
tempos míticos acontecimento primordial, arquétipos míticos a ontologia arcaica
é o princípio cosmológico incorporado no interior do ser. (ELIADE, 1954, p.
394).
Rinpoche (2007, p. 162) ao reportar-se a sabedoria ancestral do Tibete comenta
que há Cinco métodos para conseguir a
iluminação sem medita:
Vendo um grande mestre ou um objeto
sagrado; usando sobre o corpo desenhos especialmente abençoados de mandalas com
mantras sagrados, provando néctares sagrados consagrados pelos mestres em
práticas e intensivas; lembrando a transferência de consciência, o Phowa, no
momento da morte e ouvindo certos ensinamentos profundos como os contidos na Grande Liberação por Meio da Audição do
Bardo. (RINPOCHE, 2007, p. 162).
A mandala,
a imago mundi representa o Cosmo em
miniatura e o panteão (fig.2) recriação mágica do mundo. (ELIADE, 2007,
p.28).
Os
ritos dos cânticos atualizam o mito. Assim como os objetos sagrados, funcionam
como símbolos e permitem a união entre o ser e o princípio cosmológico. No caso
dos Phowa, o acontecimento narrado no
mito é o arquétipo que dá sentido ao fato presente e serve de palavra sagrada, hierós logos. Repetem a
ação dos Deuses nos tempos míticos. (CROATTO, 2007, p. 229).
Esta vida: o bardo natural – capítulo oito de Rinpoche
No
capítulo oitavo Rinpoche (2007) aborda o bardo natural, o primeiro bardo e
correspondente ao intervalo entre o nascimento e a morte período de
restabelecimento de novas oportunidades de se reconhecer a sua essência.
A visão cármica é a maneira de viver
de um modo comum no mundo da existência humana. (RINPOCHE, 2007).
A
tradição budista reconhece seis reinos de existência: dos deuses, semideuses,
humanos, animais, fantasmas famintos, e os infernos. (Ibid, 2007).
O
antropomorfismo das forças da natureza funciona como figura simbólica no
conteúdo mítico. O símbolo “delimita-se na polissemia” de origem e se associa a
cosmovisão que transcende e no mito orienta-se a partir de um acontecimento do arché repleto de significância e poder
de criação. (CROATTO, 2007, p.238).
Há
seis emoções negativas e Rinpoche (2007) as associam os Seis Reinos de
existências. O Reino dos Deuses relaciona-se ao
orgulho. O Reino dos Semideuses ao ciúme, dos
Humanos ao desejo; dos Animais, a ignorância, dos fantasmas famintos à
ganância; dos Infernos à raiva.
O
simbolismo do esquecimento e da memória nos mitos, segundo Eliade (2007), a
ignorância pode ser ignorar-se a si mesmo, o seu verdadeiro atman e a sabedoria
desvela o véu ilusório (maya) permite
liberar-se e o seu despertar. Como o Buda desperto e onisciente.
O
despertar pode ter conotação soterológica (Ibid, 2007, p.113). Segundo Rinpoche(2007),
o lama auxilia no despertar, na liberação do discípulo.
Para
Eliade (2007, p. 115): “o despertar implica a anamnesis, o reconhecimento da
verdadeira identidade da alma, ou seja, o reconhecimento de sua origem
celestial”.
O
despertar pode ocorrer em algum nível de consciência dos quatro bardos
acompanhados da visão cosmológica.
Rinpoche
(2207) considera que há três tipos de visão: a Visão cármica impura: são os seres ordinários. A Visão da
experiência: são os praticantes da meditação, via da transcendência. A Visão
pura: são os seres realizados ou budhi – percepção da perfeição mundo –
primordial.
Num
acontecimento originário de um tempo primordial, da totalidade dos primórdios
in illud tempus surgem os Deuses, semideuses, como a personificação no
simbólico e funcionam como atores nos mitos. Para Croatto (2007) “são
arquetipificações da pluralidade dos fenômenos da experiência humana do mundo”.
Também,
Rinpoche (2007) ensina que há três ferramentas da sabedoria (prajna, do
sânscrito): a Sabedoria do ouvir e escutar, a Sabedoria da contemplação e
reflexão e a Sabedoria da meditação.
Todas
as três encaminham para o reconhecimento da verdadeira natureza de cada um.
A sabedoria
da ausência do ego (agarrado a um eu) dá-se pelo desapego das percepções
ilusórias (maya, do sânscrito) e
descobrir o ser oculto, o Guia Sábio. Ele fala no silêncio do ego, desmanche da consciência atual (RINPOCHE,
2007, 159).
A
noção de Vazio ou vacuidade budista faz-se presente na escuta e fala silente do
espírito. Para isso ensina-se a prática do não eu, não-alma (anatma, do sânscrito). Deve-se ouvi-la, a contemplação e reflexão
permitem o aprofundamento da compreensão. A meditação conduz à intuição nas
necessidades da vida (THURMANN, 1985).
Fig. 2: A mandala com todas as divindades do Bardo. No alto Budha Samantabhadra, Budha
primordial, em união com Samantabhadri representam a união de conhecimento de
luz, clareza de Espírito, do Vazio, de todas as divindades do bardo nascem
de sua união. (fonte: Bardo Thödol) (SECRETAN,V. 1982, p. 47).
O
estado natural do espírito em sânscrito escreve-se rigpa. No budismo Dzogchen a transmissão do poder advém da
apresentação da natureza do espírito, o lama revela diretamente ao discípulo,
conforme descrito no Bardo Thödol o mestre espiritual guia seu discípulo no
momento da morte até o renascimento. De maneira similar em vida o lama ensina
para que o estudante aplique os métodos. Guru Yoga (lamai neldjor) ou união com
o lama. Em tibetano neldjor possui noção abrangente e concomitantemente mais
precisa: repousar no estado natural. Nesse momento, ou bardo a consciência
presente é o verdadeiro estado búdico, de iluminado. (CORNU, 1999).
O
estado de budeidade ou iluminação remonta a primordialidade mítica do ser.
(ELIADE, 2007).
Considerações Finais
Sogyal Rinpoche, uma lama do budismo
tibetano símbolo da autoridade espiritual e temporal. Ele representa a figura
do Budhi Primordial dos tempos míticos. O seu livro nos capítulos sete e oitavo
abordam sobre o bardo que remete ao primordial, na prática ritualística que atualiza os mitos cosmogônicos, de origem e escatológicos, que permitem "oportunidades" ou "bardos" para a obtenção do reconhecimento da própria natureza
interior, o estado búdico ou de iluminação da origem presente na mente atual de cada
ser vivente.
Bibliografia
CORNU, P. (1999) Le Yoga du maitre: la practique du coeur dans le bouddhisme Vajrayana et le Dzongchen. Bonchamp-Lés-Laval: L’Harmattam. Connaissance des Religions, 57, jan-sept.
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Paulinas.
ELIADE, M. (1954). Tratado de
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Tibet Bon religion. A Death Ritual of the Tibetan Bonpos. Boston (MA): Brill Academic Publishers.
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RINPOCHE, J. (2001). Contos Populares do Tibete. Os mais belos diálogos na literatura
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RINPOCHE, S. (2007). O livro tibetano do viver e do morrer. São Paulo: Talento.
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naturelle par la compréhension dans le monde intermédiaire. Paris: Bartillat.
SECRETAN, V. (1982). Le livre tibétain des morts. Bardo Thödol. Paris:
Dervy-Livres, Mistiques e religions.