domingo, 4 de setembro de 2016

Ayurveda (em devanagari आयुर्वॆद)

 Prof. Dr. Orley Dulcetti Junior, PhD
Guru Madhur (doce, mel,melodia, melódico, sonoro)
 Estudos Indianos, Clinico Ayurveda


A Ayurveda (devanāgarī : आयुर्वॆद ) é uma modalidade da medicina tradicional indiana.De āyus quer dizer vida, e de veda, conhecimento, então é o conhecimento da vida. As fontes primárias se encontram nos Vedas, conjunto de textos antigos indianos tradicionais, do II milênio a. C..
Os textos, contextos e conteúdo do Ayurveda.

Há 4 textos Vedas: O RigVedaYajurVeda, SamaVeda, AtharvaVeda. Cada Veda possui um Upaveda, ou Veda subordinado, a Ayurveda é um Veda dependente do Atharva Veda.
Os vedas na totalidade são considerados criações das divindades nityam et apaurusheyam ( perene e um construto não humano). Assim é o AtharvaVeda, como também, a Ayurveda atribuída a mitologia e suas divindades, uma delas foi denominada de Dhanvantari, emanação de Brahma. Por essa, entre outras razões a escrita (devanāgarī : आयुर्वॆद ) ser considerada a escrita das divindades. 

Então, os textos, as escrituras, palavras, fonéticas senso de origem das divindades estão incluídas na Ayurveda, por isso são curativas, harmonizantes. São chamados de Mantras ou Mantram ( मंत्र ),  a ser discutidos mais adiante.E foram transmitidos os escritos em forma de hinos védicos primordias, oralmente, de Brahma, posteriormente de brâmane a bramane, segundo o vedantismo, chamados os hinos de ou Shruti, transmitidos ao Rishis, sábios indianos. Mais tarde foram transmitidos pelo hinduísmo.


Em suma, os textos são fontes de cura, ou os seus hinos contidos em cada volume dos mesmos.Para que se possa compreender o real significado dos textos védicos antigos e a ayurveda que se liga a estes textos para que haja a sua ação nos humanos e viventes ou atividade de integração entre o nivel dos fenomênos e invisível dos devas ( não são seres superiores) e interagem com a natureza e o homem para o equilibrio se faz necessário adentrar nas bases védicas ou antigas do vedantismo, mitologia, cosmologia e formação corporal interligada a ayurvédica com a visão de funções, num modo especial de se entender um corpo seus constituintes, classificação, desequilibrios e maneiras de restabelecer as integrações e desajustes pelas terapias ayurvédicas ou ayurvedas.




Fig. 1: Dhavantari


O Veda, base cosmológica da ayurveda

A visão védica, refere-se ao modo de vida da antiga civilização do Rio Indo, dotada de pensamento circular, sem inicio, nem fim, posteriormente, denominado de Darshana pelo hinduísmo, que difere do védico base da ayurveda ou ponto de vista, corrente (devanāgarī: दर्शन), visão.
O mundo funciona numa unidade integrativa entre as potências agentes (devas), tardiamente ressignificadas de divindades. Em profunda relação com os fenômenos naturais incluindo-se o homo vedicus, depois o humano habitante das margens do Rio Indo. Não existe o mundo e o supernatural. Apenas um mundo dinâmico e cíclico. Mentalidade da cultura antiga indiana concebe um conjunto de potencialidades, ou de latências não manifestadas que se manifestam em fenômenos naturais, mentais. Além de ser incriado, isto é, não teve um ser superior ou acontecimento de Criação entre os povos indo-arianos (aryas). Essa concepção como passar dos milênios foi ganhando novos significados e divindades criativas entre os protobrâmanes e os pós-nativos indianos. O termo veda pode ser usado também no sentido de mod de viver plo Ayurveda ou medicina védica ou Ayurveda.
Os vedas são manifestações das potencias de ordem cósmica guardadas nessa unidade de mundo perceptível não-perceptível.Tudo deriva dos vedas.Portanto é o fundamento dinâmico da vida e de tudo que há. Tardiamente, bramanismo, sadhis ou “sábios” consideraram a manifestação ouvida da sabedoria védica da voz védica ou vratas e a escuta permanente shruti de ordem eterna, manifestam-se em poemas, e em tudo que formaram os escritos védicos considerados em 4 grupos dos vedas já mencionados acima.Desde a origem dos Vedas há os Triplos-Vedas como unidade do Veda:
O RigVéda, cantos védicos, SamVeda, as fórmulas védicas sacrificiais do YajurVéda.
Os Saṃhitā (devanagarī : संहिता) ou a junção ou união de textos e versos constam de hinos, cânticos, mantrans, preces, procedimentos du Triplo Veda são:
1.    O Rigveda-saṃhitā (devanāgarī : ऋग्वेद) com hinos para agradecer e chamar os Devas. O RigVeda possui 1028 hinos,  repartidos em 10.462 instâncias, dedicado  a Agni ou Ignis, protetor do RigVeda, recitações, hinos, mantrans e ritos litúrgicos
2.    O Sāmavedasaṃhitā consiste em trechos extraídos do Rig-Veda assimilado e ressignificados cânticos e poemas. Possui notas musicais melódicas com indicações ayurvedas.
3.    O Yajurvedasaṃhitā é um conjunto de fórmulas em versos e prosa, ao ritual de ordem  formais e litúrgicos.
O texto primeiro a ser integrado aos Triplos Vedas, foram oSaṃhitā foi o Atharvavedasaṃhitā, coleta de texto são purohita (protetor, ou terapeuta ou “médico” ayurveda) sem a presença de temas de rituais dos yajñâ (sacrifícios védicos).
O Atharvavedasaṃhitā possui procedimentos para se atingir a longa vida, e harmonizar a pessoa que manifesta o surgimento de desequilíbrios densificados, práticas supersticiosas de possessão, para obter amor e fortuna.
Posteriormente o AtharvaVeda (de Atharva , nome de família de líderes ritualísticos litúrgicos associados as cortes) aos poucos se integrou ao Quarto Veda.
No vedismo, o deva é uma ação brilhante, luminosa, latente, ativa. São potenciais de atividades do rita (DIV- significa iluminar, o sol. o dia, e deva é a ação  de DIV-). As potencialidades ativas não são divindades, nem deusas, divindades, somente tardiamente no hinduísmo, um Deva será uma Divindade.

No védico a fundação da ordem é derivada da figura de Brahman, enquanto que, no hinduísmo, a figura da divindade de Brahma torna-se integrado ao trimurti (Brahmâ, VishnouShiva).

Enquanto que, no védico antigo, os devas são um grupo social. O Veda Agni, fogo torna-se sacerdote até a atualidade. O Deva Mitra simboliza a aliança entre homens e semi-deidades, como é  Varuna, que pune os culpados das trasngressões. Eles são os assistentes de Aryanam e Bhaga. Mitra guarda a luz, Varuna preside a noite, o Deva Indra possui a função guerreira. De acordo, com o Ṛigveda há 33 potências ativas, porém com o hinduísmo o numero aumentou indefinidamente.

A Prakṛti ( do sânscrito IASTI ; Devanagari: प्रकृति) é a natureza ; ordem natural ; forma primitiva, fundamento, origem, causa.
No Samkhia, significa a Natureza Primordial (mūlaprakṛti), causa original do mundo perceptível. Podem se combinar com as potencialidades do pranavam (ou sopro primordial que deriva de Prāṇa, devanagari: प्राण), que quer dizer sopro, sopro vital, anterior a respiração e ao ar, também designa uma unidade conjuntiva de cinco sopros vitais)  e o mundo visível, ele é dinâmico ativado pelo contato com Puruṣa; Purusha é o ponto de equilíbrio do triguṇa, ou os três gunas,e de suas qualidades : sattva, rajas et tamas. O termo surge, pela primeira vez, no Svetasvatara Upanishadi, com a noção de Natureza( sendo que no latim naturae, nascimento)

A prakṛti é uma substância ativa. Natureza multiforme, que se desenvolve e se  diferencia no cosmos, que forma dentro de si todos os viventes , como se reabsorve nela mesma de tudo que ao se invisibilizar, torna-se  indistinto, sutil e original (mūlaprakṛti).

Na Ayurveda o prana (o prāṇa é citado pela primeira vez no (Chandogya Upanishad ):  é colocar em  movimento dirigido pelo (āyāma) o sopro vital respirando(prāṇa
Os cinco sopros vitais, apenas mencionados aqui, mais tarde serão temas centrais a se desenvolver no temário das aulas: são considerados no Yoga de vāyus, ou ventos :
O prāṇa ("soprovital"), apana ("sopro inspirado"), udana ("sopro vital que escoa pela parte superior do corpo"),  samana ("sopro vital que rege as trocas entre o prāṇa e o apāna"),
vyana ("sopro que se distribui por todo o corpo ")

Prāṇāyāma: consiste em por em movimento o Prāṇā dirigido pelo (āyāma) direcionamento pelo Nadis, do sopro vital respirando na unidade (Yoga) do (prāṇa) e na totalidade no corpo em união com a unidade invisível e até primordial.

Guna em sânscrito: guṇa / Devanagari: गुण) significa: fio, corda, qualidade, propriedade ; subdivisão, categorie ; mérito segundo o Dicionário sânscrito- francês, o  Héritage du Sanskrit Dictionnaire sanskrit-français. Gerard Huet, 2016. Disponível http://sanskrit.inria.fr/Dico.pdf. Acesso 20 de Maio de 2016.

Na tradição Sāṃkhya do Yoga do hinduísmo, os três gunas, conteúdo  do Bhagavati Gita do Ayurveda, as três qualités principais e interagem para produzir as formas do mundo emanado de Prakṛti,  ou Natureza Original.
No Ayurveda, os três Gunas:
1.     rajas: ativo, crepúsculo ;
2.     tamas: passivo, obscuridade, noite ;
3.     sattva: neutre ou équilibrante, luz, luminosidade,dia
Os gunas estão submetidos a duas ordens: A Alternância (entre os trigunas) e Continuidade
Na(o) Ayurveda, o distúrbio Crônico é devido ao estado dos trigunas: tamas, resulta em acúmulo de produtos tóxicos no corpo denso ( três doshas), com   emoções acumuladas no corpo sutil. Rajas é o movimento que permite a passagem de um estado de tamas a um estado de sattva (ou inverso). Essas  qualidades podem se misturar como sattva rajas, sattva, tamas, rajas sattva, etc.

Mais recentemente, a visão do pensamento dos  Sāṃkhya e no Yoga, os gunas se repartem em trigunas essenciais :
1.sattva: la pureza, verdade ;
       2.rajas: prana, paixões, desejo ;
3.tamas: obscuridade, pesado.
Os gunas se responsabilizam pela mudança das coisas e suas diferenciações, por isso importa cultivar sattva, e depois transcendê-lo. (Continua)

Bibliografia
Héritage du Sanskrit Dictionnaire sanskrit-français. Gerard Huet, 2016. Disponível http://sanskrit.inria.fr/Dico.pdf. Acesso 20 de Maio de 2016.




quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O Bardo Thödol em dois capítulos do “Livro Tibetano do Viver e do Morrer”

O Bardo Thödol em dois capítulos doLivro Tibetano do Viver e do Morrer”
© Prof. Dr. Orley Dulcetti Junior
Apresentado na PUC-SP como Trabalho de Conclusão
de Disciplina de Doutoramento em 2012
           
O presente trabalho aborda o estudo sobre a “Primeira Parte: Viver” nos capítulos sétimo “Bardos e outras realidades” e do oitavo “Esta vida: o bardo natural”, do livro de autoria de Sogyal Rinpoche (2007): “O livro tibetano do viver e do morrer”.


Fig.1:Livro Tibetano do Viver e do Morrer”de Sogyal Rinpoche.

            Sogyal Rinpoche é um lama reencarnado (rinpoche, rin pó she, ou tulku em sânscrito) do budismo tibetano que segue a tradição dos Bon do Tibete. Tem sido destacado pelos ensinamentos orais e escritos associados ao Bardo Thödol. Foi professor em Universidade Ocidental, fundou e é diretor da Fundação Rigpa de estudos budistas.
            O lamaísmo tibetano resulta da composição das crenças e religião autóctones do Tibete, o Bon (em tibetano: བོན་) constituídas de práticas mágico-xamânicas, dos ancestrais, dirigidas pela figura do lama (em tibetano: བླ་མ་, transliteração Wilye: blama) como um mestre espiritual e a adoção do budismo tântrico hindu. (KVAERNE, 1985, p. 3).
            O lama Jayang Rinpoche (2001, p.22) comenta que o Tibete convidou o budismo e não foi por ele penetrado. Mas, consiste na estratégia de popularização e difusão do Bon na própria nação e para o resto do mundo revestido do budismo trazido da Índia.
            O Rei Song-tsen Gampo do Tibete por volta do século VII, inicia a introdução do budismo naquele país. Além de enviar seu ministro para levar a escrita devanagari e criar o tibetano literário. Por isso, foi considerado o primeiro Chosrgyal (Sogyal) ou Dharma-Raja (Ibidem).
            Sogyal Rinpoche reconhecidamente foi considerado a encarnação de Lerab Lingpa Tertön Sogyal. Este último foi professor do décimo terceiro Dalai Lama, Thubten Gyatso. O lama Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö, chamado carinhosamente de Buda Primordial pelos tibetanos, como também de Rinpoche, o precioso adota Sogyal como filho (RINPOCHE, 2007, p. 14).
            Sogyal ou Chosrgyal, do tibetano Chos é Dharma (em devanagari: धर्म), em sânscrito, Dharma-Raja (Rei do Dharma). O termo Repuxe em tibetano quer dizer precioso, título honorífico do budismo tibetano e refere-se a reencarnação de um lama que outrora foi especial para a tradição dos Bon-po (praticantes do Bon) tibetano. Em sânscrito Rinpoche (em tibetano: རིན་པོ་ཆེ་) é Tulku (em tibetano: སྤྲུལ་སྐུ ), que tem o sentido de nirmanakaya ou corpo do Budha e se reporta à encarnação de lamas ou mestres espirituais (THURMAN, 1995, p. 75).
            O especialista em tibetano e antropologia religiosa Cornu (1999, p. 271) da Universidade Paris VI, assinala que, a linhagem dos lamas tulku remete ao Budha Primordial. Eles são os depositários da sabedoria ancestral, a chama viva da sabedoria primordial. Na transmissão de poder (abhisheka em sânscrito, em tibetano wang) revela-se a própria natureza do lama e nele encarna-se no interior do ser a sabedoria primordial.
            A sabedoria e budeidade primordiais remontam à primordialidade, fonte dos seres, in illo tempore e funcionam como símbolos nos mitos de Origem. Eliade (2007) classifica a primordialidade em pré-cósmica e cosmogônica, histórica.
            Na primordialidade pré-criacional (cósmica) ocorre a personificação em figuras simbólicas, tais como o Ser Supremo. (ibidem, 2007).
            Em Eliade (2007), os mitos de origem narram e legitimam um novo acontecimento:

Mas todo novo aparecimento - um animal, uma planta, uma instituição – implica a existência de um Mundo. Os mitos de Origem prolongam e completam o mito comogônico. (Eliade, 2007, p. 25).


            Isso ocorre como na genealogia dos monarcas tibetanos a qual começa com a formação do Mundo a partir de um Ovo Cósmico até chegar a atualizar na figura do chefe de uma dinastia, de um clã, ou de um lama.
           
Bardos e outras realidades – capítulo sete de Rinpoche

            Rinpoche (2007) traz seus ensinamentos da tradição oral Dzogchen a “Grande Perfeição” transmitida nos escritos do Bardo Thödol
            O capítulo sete conceitua o bardo e propõe ensinamentos práticos.
            O termo Bardo, do tibetano significa “transição, ou um intervalo de uma situação e o início de outra”. Do tibetano Bar ou “entre duas coisas” e Do, “suspenso” ou “lançado” (Ibidem, 2007, p. 141).
           Concordante com Sogyal, o tradutor do Bardo Thödol para o idioma inglês, Robert Thurman (2006, p.11) discorda do título mal escolhido, “O Livro dos Mortos”. Rinpoche (2007, p. 141) traduz do tibetano Bardo Thödol Chen Mo, como Grande Liberação por meio da audição do bardo.
            A palavra Thödol provém de Thos Grol significa “liberador”, que consiste na principal mensagem da obra: Bardo Thödol.(Thurman, 2006, p. 14).
            Rinpoche (2007, p. 141) afirma que tais ensinamentos provêm de uma ancestralidade de antes dos tempos e se remete ao Buda Primordial (em tibetano Kuntuzangpo e em sânscrito, Samantabhadra) de “pureza primordial” como o “céu da natureza de nossa mente”.
            A primordialidade evocada novamente identifica-se com a atemporalidade pré-criacional, o tempo mítico. (Eliade, 2007, p. 26).
            O autor alude ao mito do Livro Tesouro (em sânscrito: terma) ao mencionar a autoria dos ensinamentos a Padmasambhava (o nascido do lótus) como figura mítica fundadora da escola Nyingmapa. O texto sagrado guardado ou escondido foi descoberto, posteriormente, num monte, no século XVII, por Karma Lingpa. Os textos tesouros são caracterizados por uma existência muito remota e costumam ser encontrados por um mestre budista tibetano (tibetano: terton, o revelador dos tesouros) numa caverna, cova, rocha ou nas paredes de um templo muito antigo. (SECRETAN, 1982, p. 33).
            Os bardos referem-se aos estados intermediários entre a morte e o renascimento. Segundo Eliade (2007, p. 59) pode inferir o contexto no momento da morte, de um mito escatológico, a destruição cíclica do Mundo e do ser. Seguido do mito cosmogônico correspondente ao período da morte ao novo nascimento da pessoa ao se refazer a cosmologia budista. São oportunidades para a liberação e iluminação dirigidas pelo lama.
            Rinpoche (2007, p.143) afirma que a existência possui quatro realidades ou quatro bardos: vida, o morrer e a morte, o pós-morte, o renascimento e correspondem ao bardo natural dessa vida, o bardo doloroso da morte, bardo luminoso do dharmata, bardo cármico do vir-a-ser. São quatro intervalos que podem levar a iluminação.
            O homem deve atingir novamente seu estado primordial pela prática espiritual no bardo da vida. O estado Budhi ou de iluminação extinção do desejo, ilusão - a natureza primordial no ser-o mito do Garuda, cujo símbolo é uma ave mítica mencionada por Rinpoche (2007, p.146). Ele nasce adulto e “simboliza nossa natureza primordial que já é complemente perfeita”. A ave nascida do ovo cósmico, hiranyagharba (em devanagari: हिरण्यगर्भ): ), matriz de ouro, como Brahma que nasceu do ovo de ouro a ave só pode voar ao sair do ovo, o estado de budeidade fica “velada pelo corpo” e ao desencarnar “as qualidades aparecem de forma radiante”. Nesse momento especial da morte pode-se reconhecer a Luminosidade base atinge a liberação e somente a prática espiritual pode conduzir. Durante a vida no corpo pode-se também liberar-se pelo reconhecimento essencial da Clara Luz.
            Diferentes bardos correspondem a diferentes estados mentais que permitem chegar a um só estado: o búdico. Relacionam-se cada bardo a um nível de consciência na vida e morte.
            A Meditação (dhyana, em sânscrito, em devanagari: ध्यान), um treinamento budista: no bardo da meditação prática diurna podem ocorrer diversos estados do ser e pode-se até chegar a iluminação (RINPOCHE, 2007, p. 148).
            O ato de dormir: o período do sono corresponde ao bardo da morte leva a Luminosidade de Base. O sonhar corresponde ao Bardo do vir-a-ser e permite o deslocamento do corpo mental. Entre o sono e o sonho ocorre o bardo do dharmata possibilidade de reconhecimento da própria natureza. A prática noturna é um tipo de Yoga do sono e do sonho. (Ibidem, 2007, p.150).
            O mito escatológico aproxima-se do contexto do sonho que corresponde a morte. Ele contém símbolos e o bardo Thödol conta os mitos através de símbolos como Luz, zonas luminosas, luz fundamental (em tibetano transliterado:  gzh’i od-gsal) (SECRETAN, 1982).
            A natureza espiritual é a luminosidade a que se refere Rinpoche (2007) e corresponde ao estado primordial do ser, dos tempos míticos.
            Rinpoche (2007, p.151) acrescenta: “nós também somos budas. “ É agora – tornar-se iluminado nessa vida”.
            A natureza interior do ser humano é a natureza espiritual da luz. O homem em essência é uno com Budha, natureza Budhi ou gérmen do Tathagata. (SECRETAN, 1982).
             O Uno Primordial é uma figura simbólica no antes da criação repleta de ontogenia. A primordialidade no ser remonta aos tempos míticos acontecimento primordial, arquétipos míticos a ontologia arcaica é o princípio cosmológico incorporado no interior do ser. (ELIADE, 1954, p. 394).
            Rinpoche (2007, p. 162) ao reportar-se a sabedoria ancestral do Tibete comenta que há Cinco métodos para conseguir a iluminação sem medita:

Vendo um grande mestre ou um objeto sagrado; usando sobre o corpo desenhos especialmente abençoados de mandalas com mantras sagrados, provando néctares sagrados consagrados pelos mestres em práticas e intensivas; lembrando a transferência de consciência, o Phowa, no momento da morte e ouvindo certos ensinamentos profundos como os contidos na Grande Liberação por Meio da Audição do Bardo. (RINPOCHE, 2007, p. 162).


            A mandala, a imago mundi representa o Cosmo em miniatura e o panteão (fig.2) recriação mágica do mundo. (ELIADE, 2007, p.28).
            Os ritos dos cânticos atualizam o mito. Assim como os objetos sagrados, funcionam como símbolos e permitem a união entre o ser e o princípio cosmológico. No caso dos Phowa, o acontecimento narrado no mito é o arquétipo que dá sentido ao fato presente e serve de palavra sagrada, hierós logos. Repetem a ação dos Deuses nos tempos míticos. (CROATTO, 2007, p. 229).



Esta vida: o bardo natural – capítulo oito de Rinpoche

            No capítulo oitavo Rinpoche (2007) aborda o bardo natural, o primeiro bardo e correspondente ao intervalo entre o nascimento e a morte período de restabelecimento de novas oportunidades de se reconhecer a sua essência.
A visão cármica é a maneira de viver de um modo comum no mundo da existência humana. (RINPOCHE, 2007).
            A tradição budista reconhece seis reinos de existência: dos deuses, semideuses, humanos, animais, fantasmas famintos, e os infernos. (Ibid, 2007).
            O antropomorfismo das forças da natureza funciona como figura simbólica no conteúdo mítico. O símbolo “delimita-se na polissemia” de origem e se associa a cosmovisão que transcende e no mito orienta-se a partir de um acontecimento do arché repleto de significância e poder de criação. (CROATTO, 2007, p.238).
            Há seis emoções negativas e Rinpoche (2007) as associam os Seis Reinos de existências. O Reino dos Deuses relaciona-se ao orgulho. O Reino dos Semideuses ao ciúme, dos Humanos ao desejo; dos Animais, a ignorância, dos fantasmas famintos à ganância; dos Infernos à raiva.
            O simbolismo do esquecimento e da memória nos mitos, segundo Eliade (2007), a ignorância pode ser ignorar-se a si mesmo, o seu verdadeiro atman e a sabedoria desvela o véu ilusório (maya) permite liberar-se e o seu despertar. Como o Buda desperto e onisciente.
            O despertar pode ter conotação soterológica (Ibid, 2007, p.113). Segundo Rinpoche(2007), o lama auxilia no despertar, na liberação do discípulo.
            Para Eliade (2007, p. 115): “o despertar implica a anamnesis, o reconhecimento da verdadeira identidade da alma, ou seja, o reconhecimento de sua origem celestial”.
            O despertar pode ocorrer em algum nível de consciência dos quatro bardos acompanhados da visão cosmológica.
            Rinpoche (2207) considera que há três tipos de visão: a Visão cármica impura:  são os seres ordinários. A Visão da experiência: são os praticantes da meditação, via da transcendência. A Visão pura: são os seres realizados ou budhi – percepção da perfeição mundo – primordial.

            Num acontecimento originário de um tempo primordial, da totalidade dos primórdios in illud tempus surgem os Deuses, semideuses, como a personificação no simbólico e funcionam como atores nos mitos. Para Croatto (2007) “são arquetipificações da pluralidade dos fenômenos da experiência humana do mundo”.
            Também, Rinpoche (2007) ensina que há três ferramentas da sabedoria (prajna, do sânscrito): a Sabedoria do ouvir e escutar, a Sabedoria da contemplação e reflexão e a Sabedoria da meditação.
            Todas as três encaminham para o reconhecimento da verdadeira natureza de cada um.
            A sabedoria da ausência do ego (agarrado a um eu) dá-se pelo desapego das percepções ilusórias (maya, do sânscrito) e descobrir o ser oculto, o Guia Sábio. Ele fala no silêncio do ego, desmanche da consciência atual (RINPOCHE, 2007, 159).
            A noção de Vazio ou vacuidade budista faz-se presente na escuta e fala silente do espírito. Para isso ensina-se a prática do não eu, não-alma (anatma, do sânscrito). Deve-se ouvi-la, a contemplação e reflexão permitem o aprofundamento da compreensão. A meditação conduz à intuição nas necessidades da vida (THURMANN, 1985).
Fig. 2: A mandala com todas as divindades do Bardo. No alto Budha Samantabhadra, Budha primordial, em união com Samantabhadri representam a união de conhecimento de luz, clareza de Espírito, do Vazio, de todas as divindades do bardo nascem de sua união. (fonte: Bardo Thödol) (SECRETAN,V. 1982, p. 47).
           
            O estado natural do espírito em sânscrito escreve-se rigpa. No budismo Dzogchen a transmissão do poder advém da apresentação da natureza do espírito, o lama revela diretamente ao discípulo, conforme descrito no Bardo Thödol o mestre espiritual guia seu discípulo no momento da morte até o renascimento. De maneira similar em vida o lama ensina para que o estudante aplique os métodos. Guru Yoga (lamai neldjor) ou união com o lama. Em tibetano neldjor possui noção abrangente e concomitantemente mais precisa: repousar no estado natural. Nesse momento, ou bardo a consciência presente é o verdadeiro estado búdico, de iluminado. (CORNU, 1999).
            O estado de budeidade ou iluminação remonta a primordialidade mítica do ser. (ELIADE, 2007).

Considerações Finais
           
Sogyal Rinpoche, uma lama do budismo tibetano símbolo da autoridade espiritual e temporal. Ele representa a figura do Budhi Primordial dos tempos míticos. O seu livro nos capítulos sete e oitavo abordam sobre o bardo que remete ao primordial, na prática ritualística que atualiza os mitos cosmogônicos, de origem e escatológicos, que permitem "oportunidades" ou "bardos" para a obtenção do reconhecimento da própria natureza interior, o estado búdico ou de iluminação da origem presente na mente atual de cada ser vivente. 

Bibliografia


CORNU, P. (1999)  Le Yoga du maitre: la practique du coeur dans le bouddhisme Vajrayana et le Dzongchen. Bonchamp-Lés-Laval: L’Harmattam. Connaissance des Religions, 57, jan-sept.

CROATTO, J.S.(2007). As linguagens da experiência religiosa. São Paulo: Paulinas.

ELIADE, M. (1954).  Tratado de historia de las religiones. Madrid: Instituto de estudios políticos.
______. (2007). Mito e Realidade. São Paulo: Perspectiva.

KVAERNE P. (1985). 
Tibet Bon religion. A Death Ritual of the Tibetan Bonpos. Boston (MA): Brill Academic Publishers.

RINPOCHE, J. (2001). Contos Populares do Tibete. Os mais belos diálogos na literatura budista. São Paulo: Landy.

RINPOCHE, S. (2007). O livro tibetano do viver e do morrer. São Paulo: Talento.

THURMAN, R.(2006). Le livre des morts tibétain. Le Grand livre de la libération naturelle par la compréhension dans le monde intermédiaire. Paris: Bartillat.


SECRETAN, V. (1982). Le livre tibétain des morts. Bardo Thödol. Paris: Dervy-Livres, Mistiques e religions.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Curso de Acupuntura Formação Livre e de Pós Graduação São Paulo Novembro de 2016


Evento publicado no facebook: https://www.facebook.com/events/1524563994538353/



Curso de Formação em Acupuntura para formados em nivel medio de ensino
Curso de Acupuntura pós graduação pela Facei para todas as áreas de graduação reconhecidas pelo MEC
Duração: 24 meses
Um final de semana por mês
Fácil aprendizado. Material de apoio.
Contatos: e-mail: ibraho@uol.com.br/ 
Cel.: (11) 9.7668.7171(CLARO)
Coordenador: Prof. Dr. Orley Dulcetti Junior, dentista, mestre em farmacologia, PhD, sinólogo e professor acupunturista e clinico há mais de 35 anos de experiência. Acupuntura clássica. A mais tradicional ensinada no Brasil. Equipe de excelencia formada nas melhores Universidades de SP. Professores formados no IBRAHO




Saiba um pouco dos temas ensinados que em nenhuma escola você vai aprender Somente nos Cursos do Acupuntura Ibraho ..."Ponto de acupuntura (do latim: punctum, puntio, punctura e acus- agulha)"
É uma invenção latina de nome feita pelos jesuítas do século XVII, na tentativa de traduzir os caracteres chineses 穴氣 (xué qì) , 穴道(xué dào).
Os jesuítas deixaram esse legado mal compreendido por eles próprios.
Em consequência disso a maioria dos clínicos de acupuntura acostumaram a usar o termo latino, em diversos idiomas no mundo.
Os sinólogos que seguem o legado jesuíta herdaram as traduções inadequadas, que nada têm em comum com o significado da medicina deixada como legado original do Imperador Amarelo para o povo Hàn, que se mundializou.
Os caracteres chineses 穴氣 (xué qì) ou cavidade dos sopros , 穴道(xué dào) ou cavidade da via (espontânea).
by Prof. Dr. @Orley Dulcetti Junior com Profa. Estela Ghoretti


domingo, 13 de setembro de 2015

Livro de tese do Prof Dr Orley Dulcetti Junior "A Medicina Chiinesa no Huang di Nei Jing"

À Venda nas Livrarias Saraiva.
Amazon.com.br
Ou na Livraria da Editora Prismas. A ed. que publicou o livro
 Conteudo inedito no Brasil e no Exterior.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A Tartaruga Negra e a Ave Vermelha - Um conto quase chinês contado por um brasileiro com espírito chinês


  
            Num mundo longínquo nas brumas dos tempos remotos habita uma tartaruga na ínfima caverna entre as montanhas de uma ilhota ao norte dos mares gelados.
       Ao final de cada ciclo natural completo ela protrui o pescoço para fora da morada sombria. De modo a perceber todo o movimento dos quelônios alvoroçados imbuídos de fazer os primeiros preparativos para festejos primaveris da colônia no aguardo das eclosões dos ovos dos recém-chegados convivas.
       Sheng, a tartaruga-fêmea da ilha negra do norte possuía um ar ascético entre os da sociedade quelônia. Talvez pelo seu interesse em assuntos da espontaneidade e do invisível que sentia em si própria as influências maravilhosas. Ao contrário dos demais que tinham certo desinteresse pelos afazeres daquela sociedade insular.
          Há quem diga que ela tem costumes exóticos e às vezes, até mesmo, incompreensíveis pelos insulares dos outros arquipélagos e até mesmo pelos seus compatriotas. Ora, o que se deve pensar daquele que, no alvorecer estica o pescoço sobre a rocha mais elevada do penhasco, emite um som longo e estridente ao manter-se imóvel durante horas. Enquanto isso, todos os demais se despreguiçam, içam-se, em passos curtos e lerdos ao moverem-se na busca obsessiva de alimento.
      Qual a finalidade de comer, simplesmente? Enchem-se a pança, mas esvaziam-se no mais profundo e interno. Com seu abissal pleno, o alimento deixa de ser o objeto principal da vida e tornam-se as influências sutis as reguladoras de toda a vida e de tudo no viver no visível e no invisível.
          Parece que a nossa personagem é exótica para uma tartaruga, diferente das demais se ocupa na busca incessante e espontânea do saber-viver.
       Ah, essa tartaruguinha aquática costuma desaparecer aos olhos das outras tartarugas. Cada dia, numa nova empreitada... Ela procura cruzar os distantes mares. Ela vai cada vez mais além entre os quatro mares sem começo, nem fim. Quando chega ao fim é que já está no seu começo... Sempre ao voltar, se depara com os da ilha, os preguiçosos tanatônicos que sob a luz solar dormitam ou insistam na lenta e duradoura falta da marcha espontânea. Porém, seguem semi-conscientes nas suas concatenações desenfreadas e mal pensadas espreitadas em direção à comida assaz desejada.
        Desta vez conta aos desinteressados e escassos ouvintes que chegou muito próximo da linha divisória com a ilha do leste (se é que há divisão, pensa ela, num mundo real-imaginário e este real não-visível e indizível, que em tudo há).
     Qual leste, que nada! Nisso, todos concordavam sem dar o mínimo de crédito à aventureira negra.
        Nem adianta mais dizer que ela quase se afogou na correnteza marítima e persuadida de sua convicção esforçou-se além de suas possibilidades no enfrentamento do naufrágio. Isso não bastasse defrontou-se bravamente com os vorazes e esfomeados tubarões gigantes. Famosos, naquelas paragens oceânicas por serem comedores de tartaruguinhas idealistas (principalmente exóticas e esquizóticas). E, mesmo assim, que a enxergassem como uma de fora e diferente das outras, assim mesmo, venceu predadores e revoluções dos mares, a nossa perseverante negra e aquática.E, ninguém se impressiona, nem tampouco atende ao chamado dela.
       – Hei, venham cá, a vida não é só isso o que vocês repetidamente fazem e nem bem sabem: o por quê. Mas saber para quê? A vida parece ser apenas feita de costumes, os usos de comer, beber, tanatosear, procriar...
Mas, os habitantes ilhóticos e tartarugueses preferem nada, nadar e nem pensar nisso ou naquilo outro, eles têm suas metas, metamorfoseiam-se sem perceber que o que muda é por fora e por dentro. Nada muda! Porém, para a nossa tartaruga há a transformação ininterrupta e silente no interno. Para ela a sutileza interior permite a transformação silente e inescrutável. Ah, então incita a mudança por fora qual uma raiz de árvore que nascerá a cada movimentação no in-formal, pela sutil transformação constante e ininterrupta, de acordo com a propensão da ocasião. E, em cada respiração uma nova transformação começa no inefável e continua sem rupturas no perceptível do mais ínfimo ao infinitamente grande e visível. 
Desse jeito está sempre ela propensa ao acontecimento, a ocorrência propícia de modo espontâneo sempre sob a influência maravilhosa e original. E, nisso não se importa ela em tirar proveito da situação, se será a melhor ou a mais esperta. Na busca do espontâneo original encontra-se nele sempre o nascimento de uma ocasião propícia, disso a eficácia.
- Queremos o melhor resultado e o efeito é que mais importa, não sabemos da causa. Deixamos para os especialistas das especulações.
Ela replica: nada quero, pois  o querer é egótico e ambicioso. Mas, não me solto na correnteza marítima. E, sim, vivencio intensamente o advir da propensão no meu íntimo e neste, a minha obtenção. E, o resultado vem e vai, bascula-se e a escolha é a ocasião, não ocasional, mas na origem de tudo, o espontâneo.
 E, se fosse eu um sábio não pensaria. O sábio nada sabe sobre as coisas, mas vai, além disso, pois, interessa-se ainda mais, com a relação das coisas, os entre-meios e não a coisa em si: o eu quero isso, ou é isso o que é, e o que é, então é o que mais se vale.
Mas, não se necessita de nada mais, pois se têm a raiz invisível e chegar até esta se deixando brotar o fruto, que não se faz, nem se produz, também não é agente da passiva, transforma-se da sutil originalidade que acontece no espontâneo. É o saber sem se preocupar com a sabedoria. Nesta o objeto em si não é a meta, nem tem maneira objetiva e muito menos se almeja. Não me inspiro em nada, apenas respiro o sopro, que por ninguém foi soprado, mas pelo vento original; nem sacro, nem pro-fanum, apenas traço meus passos no com-passo e com-tudo e mais-nada é tudo com todos e todos com um. Não o um supremo ou o uno. Mas, na medida das coisas de uma ação eficaz não interferida, cuja morada, também se move dentro de mim. Sendo dessa maneira obtenho o agir, fora de mim, que juntos formam uma dupla inseparável na dosagem da medida justa e correta.
E, se nada falo, ajo por dentro, se nada falo é porque não penso, por fora; fica sus-penso, então não penso. É que o pensar é também o não pensar que fica na mesma condição das coisas pensadas. Aí, deixo e minha estratégia é simples: não ter estratégia.
O funcionamento relacional é o fundo da vida que toma a frente e que de ante-mão é a mão antes de tudo, que não se conta nos dedos, acena-se, gesticula-se o gesto do invisível espontâneo, que a tudo gera e influencia num processo contínuo. Assim, acontece assim, simplesmente... O simples é o sutil que no denso se transforma em silêncio e assim nascem todas as coisas e se estas são a vida, por assim só, continuamente, sem antes nem depois, no acontecimento pela transição espontânea, por isso mesmo e assim por assim mesmo, sem mais nem menos...
            Dia após dia, ela não se entretém na luta pela vida comum, como é com todas as outras. Mas, labora em ultrapassar as suas possibilidades tartaruguêsas ao encontro da comunicação visível-invisível e vice-versa.
As tartarugas esqueceram-se de suas ancestralidades.
Ah, Gui (lê-se kuei: tartaruga, em chinês) lembra-se bem dos ensinamentos transmitidos pelos seus ancestrais e pais, eles que foram a última linhagem ritualizada dos antepassados.
A tartaruga primordial edificou através dos sopros vitais originais Yin/Yang o Céu-Terra e sobre o dorso assentava-se o Céu e no ventre a Terra. Assim, mantinham-se as cinco fases dos movimentos dos sopros luminosos e obscurecidos (yin yang) com as quatro patas que serviam de eixos de comunicação nos quatro orientes. Enquanto que, o seu corpo manifestava a sutil influência da origem espontânea. E a longevidade inerente a duração da sua existência corporal, de acordo com a unidade. A imortalidade do corpo de sopros feito de essências com sua influência sutil e maravilhosa pivoteia na individuação reconhecidamente, através das vivências cíclicas.
Uma descendente remota transmitiu os nove palácios de divisão da Terra em união com os Oito acúmulos do Céu surgidos dos sopros originais e ensinou aos mestres autênticos da antiguidade chinesa o método (tao) da tartaruga maravilhosa de inteligência espontânea.
        A inversão após a queda do conhecimento foi conseqüente ao exílio do corpo ao influente e maravilhoso do original. Desde a época da transmigração das tartarugas do outeiro primordial ao mundo atualizado, manifestado.
    O caminho da tartaruga maravilhosamente guiada pelas influências sutis consiste na reconquista da união com o tao, o movimento espontâneo movido num intuito eficaz impulsionado pela luminosidade influente e onipresente invisível no seu interior corpóreo. Com isso, a conduta mantida sob a regência da luz original em si condiz com a sua espontaneidade e autenticidade lhe torna a obter eficácia.
        Para além das coisas faladas, a tartaruguinha continua a busca da eficácia. Não havia dúvidas, nem incertezas, somente a clareza sutil acenante no seu interno, dentro das suas cinco vísceras prioritárias de sua vida cosmogênica, análogas ao centro original, com seus quatro orientes seguindo a ordem, ordenança anterior ao Céu. 
    Tanto eficaz além da fala que, até as carapaças dos seus ancestrais serviram de instrumento na queima para obtenção de soluções assinaladas pelo céu nas suas fendas escavadas gerando sinais ventosos que dirigiam as atitudes perante a vida. Assim, surge a escrita chinesa e os sinais assinalados pelo regulador céu incitaram ventosamente a resposta de uma inteligibilidade tartaruguêsa, entre as primevas tartarugas dançantes em sintonia com a música do céu regulador manifestada em sinais celestes na movimentação ventosa dos corpos celestes do corpo do mundo. Nesses rituais havia conjugação do invisível com o visível numa mesma condição. Quem fazia os rituais eram a tartaruga-rei e a tartaruga-rainha.
      ...Entre uma maré da vida e outra, novas investidas. Os quatro mares do oceano primordial estão contidos nela, silentes e seu coração consciente disso. É a sua paisagem interior tal qual é o corpo de sopros do mundo, assim também, como o de nossa tartaruga negra como as águas oceânicas dos primórdios nos confins do mundo ainda imanifesto.
    Ela na tentativa de deixar possuir-se pelo seu próprio espírito atravessa um dos quatro mares até atingir o mar do leste. De longe... Ela percebe que os habitantes dessa nova ilhota, além de possuir escamas são verdes, põem fogo pela boca e se parecem com serpentes-lagartos, alados e voadores. Na medida em que, se aprochega dos insulares do leste surge um súbito vento vindo do oriente e um clarão muito intenso promovem uma reviravolta no corpo da nossa pequena e aquática personagem que se sente como numa implosão, eclode de suas carapaças, cai num abismo marítimo, perde sua consciência. Não sabe bem o quanto permaneceu assim e ao se despertar vê-se numa planície verdejante infinita. Porém, há algo de diferente, não se sente mais aprisionada naqueles duros cascos e pesadas patas quadrangulares como a imagem terrestre. Agora, se sente mais potente esguia e escamosa metaformoseia-se em uma serpente aquática, Vence as barreiras abissais. Dessa vez nada de modo veloz entre - ondas e emerge na luminosidade do alvorecer. Ganha garras, asas, uma longa cauda e uma grande cabeça de: dragão. 
     Subitamente, inicia a falar e a compreender a língua dos dragões da madeira no leste. Tão veloz seu vôo quanto seu pensamento e imaginação. Os seus sopros têm a capacidade de tranformar qualquer coisa. A cada baforada uma nova natureza forma-se. Os dragões comunicam-se pela fala do fogo, aceso e apagado, em cada sopro exalado, uma idéia propensa. O seu corpo formado de sopros da madeira permite que acolha e drague do Céu os sopros celestes e da Terra os sopros terrestres e então eles sopram luzes e das luzes surgem sombras e da união de sombras e luzes, luzes-sombras esvaziam-se por dentro e no vazio interior suas visões transpõem o espaço-tempo e legitima-se a originalidade do não-ter corpo assim, em ter um corpo assim, num constante e mutável movimento: o do surgimento ou a madeira, que vê da árvore, que vem da raiz de tudo, que vem da espontaneidade. 
    Os dragões possuem moradias nas cavernas das montanhas do leste que nesse mundo são chamados de porta dos dragões, no idoma draconês é long men. Os vales também os têm.
     Tão cedo se desperta e vai soprar por todo o vale. Entre as nuvens. Ainda mais no alto as luminárias, suas confidentes testemunham a vastidão do seu voar. O passatempo preferido. Mas também têm suas tarefas, dentre elas as mais dignas, a de colaborar na transformação das coisas propensas e advindas do espontâneo no invisivelmente visível e no visivelmente invisível.
     A melhor das aventuras está na velocidade do vôo. Conta-se que há miríades de dragões, mas nem todos são vistos ou no céu, na terra, no ar ou no mar. Porque atingem tal ligeireza que nenhum aparelho especial pode captá-los. As suas assembléias não acontecem nesse lugar, mas num espaço invisível, um não-lugar. Num tempo que não é mais esse tempo. Os seus poderes vitais concorrem para uma única condição: fazer o que se deve ser feito com sintonia e entrosamento  nas manobras aéreas.
Na medida em que cada sopro assoprado pelos dragos seja um acúmulo de alento não soprado por ninguém, nenhum ser, mas surgido assim por si mesmo, chega-se ao porvir, com o seus bafos quentes de fogo que meneiam a vida nos vales, nas montanhas e em tudo mais.
O seu alimento é a constância entre o dragar e o bafejar. O voar e permanecer no alto e aterrissar e permanecer no baixo. Entre o acima e o abaixo as mudanças e transformações ocorrem num farfalhar das asas em meio a tudo que vem de cima e chega abaixo.
No centro desse não-espaço habita o dragão amarelo de cinco garras. Ele permite as relações de trocas em todos os quadrantes a partir do centro numa atitude de intermediação entre o alto e o baixo. Ele pode flutuar entre as ondas do mar sem desmanchá-las. Tem grande sabedoria, conhece todos os mundos e foi chamado de dragão imperial. É o dragão-rei. Ele reina pela movimentação dos sopros da terra e não do fogo, nem da madeira. E quando ele termina sua existência terrena, cada parte dele origina um constituinte dos três: de cima, debaixo e do meio. Os olhos formam sol e lua, seus músculos, as montanhas, seu alento o ar, o vento e dá vida as coisas. As veias faziam os trajetos dos condutos sutis e concretos do subterrâneo, outros de seu habitat, chamam-se veias do dragão, até hoje. O humano será feito da menor vida que se hospeda nos seus pelos entre as escamas.
A vida de dragão é uma vida transformante, a cada passo sobre a terra, o mar, na montanha ou no vale, uma  nova mudança de vida...
E, o nosso dragão-rei voa e por onde voa espalha sopros de vida que nascem, mas que também morrem se queimam e surgem as suas cinzas, delas surge o fogo que não queima, mas que transforma na condição do seu ciclo na sucessão das coisas espontâneas e assim se vai e assim se vem. Esse novo começo ainda não é um começo e quando chegar ao final será o re-começo.
O dragão sobe as montanhas celestes e fica sem as escamas. Surgem as penas. O sopro transforma a boca em bico e as asas majestosas são a imensidão do tamanho do mundo
O céu azul no infinito, nele a ave maravilhosa de tamanha infinitude de coloração vermelha nascida do fogo. Fogueia, fogueia. No bater das asas monta sobre o vento e voa, voa... Lá, do alto regula o vento abanado pelas suas asas num soprar através e além do fogo, então imanifesta-se à medida que se manifesta no ritual festivo fogoso e majestoso... Sobe o fogo e formam-se nuvens então sobrevém a descida d’água, a sua acolhida pelo solo. Assim é um vai e vem, vem e vai na cadência da movimentação das asas da ave maravilhosamente vermelha,cor do fogo, do coração e das influências sutis. 
E o ciclo assim tem o seu fim, cujo fim sempiterno é um re-começo eterno.
Turbilhona-se majestosamente ao vento e depois disso... Pousa docilmente sobre o solo, até perder duas pernas. Então, ganha quatro patas com garras o intenso movimento torna a sua vermelhidão numa brancura cândida expressada no andar do branco tigre metálico. Firme no caminhar. Quando malhado, ele parece movimentar-se no repouso e ao repousar-se, movimenta-se repleto de sopros do metal, que se afinizam com o mais yin, o solo terrestre. O seu urro ressona pelos vales para que os habitantes saibam por si mesmos, o que há e o que não há. Assim por assim mesmo, os sopros sintonizam-se com tudo ao que lhe convém. Por isso, que se costuma dizer: a união do dragão verde com o tigre branco. Rei do seu domínio dos montes e vales. Majestoso. Perspicaz. Na medida em que envelhece a brancura metálica se esvanece...Transforma-se, então mudanças acontecem. Perde a cor, o branco para que numa sintonia incrível, o branco do oeste, do por do sol, da estela branca, do provir torna-se sem a cor. Fica preto, escondido, não mais aparente, neste momento propício não mais yang e sim yin. Formam-se cascos no dorso e no ventre. Recolhe-se ainda mais e mais... Tigre? Já não mais! Agora chega o inverno, escurece no norte mais sombrio em sintonia com a água. Nas fossas abissais aquáticas, entre as ondas oceânicas escurecidas num único e ínfimo lampejo na escuridão surge, emerge a nossa personagem tartaruguês. Mais uma vez ela desponta entre as águas. Porém, num momento diferente. Continua, transforma, dá sequência e se muda, com os seus sopros medianos, entre o céu ordenador e a terra responsiva.
Isso não é uma história verdadeira, nem falsa, nem certa, nem errada! Mas, diz respeito à habilidade da vida espontânea e ordeira da tartaruguinha, que na sintonia das coisas pode fazer eco em cada um de nós, ao mesmo tempo, no mais profundo recôndito vazio do nosso coração. Então, é o fim (que na tradição chinesa, quer dizer ainda não acabou, nem acabará). Re-começo...daqui pra diante num ciclo alternante de aparecimento e reabsorção pelo imperceptível.